PATRIMÓNIO
Condições de Acesso: Interdito
Cronologia: Século XV
Propriedade/Natureza: Privada
Gestão/Entidade: Reinhard Naumann
ENQUADRAMENTO LEGAL
Classificado: Não
Classificação/Proteção: Inventariado / Área de valor arqueológico potencial: qualquer tipo de intervenção relacionada com infraestruturas, incluindo as de saneamento, rede de águas, operações urbanísticas, se implicarem impactos significativos ao nível do subsolo, deverá ser integral e continuamente acompanhada por arqueólogo, com efeito preventivo em relação à afetação de vestígios arqueológicos incógnitos, podendo implicar ulteriores medidas de minimização em função da avaliação dos elementos encontrados
Legislação Associada: Património Cultural, I. P. (CNS 40219); PDM de Almada
Alameda do Castelo 25
A inscrição foi identificada no decurso da realização de obras não licenciadas no quintal de um imóvel situado na Alameda do Castelo. Esta descoberta motivou a intervenção de arqueólogos da autarquia e da fiscalização municipal, resultando na suspensão preventiva temporária dos trabalhos em curso.
Foi recolhida uma lápide funerária em pedra lioz, lavrada nas duas faces, com carateres góticos gravados no sentido vertical (ao alto), que remetem para meados e finais do século XV. O elemento terá sido originalmente implantado na antiga Igreja de Santiago de Almada, afastando-se a hipótese inicial de proveniência da Igreja de Santa Maria do Castelo (destruída pelo terramoto de 1755), face aos dados biográficos obtidos no próprio registo epigráfico.
A “Face A” apresenta o texto cronologicamente mais antigo (século XV). É composta por seis linhas curtas em letra caligráfica gótica solene, sem adornos, encontrando-se a parte central bastante desgastada, possivelmente devido à colocação da peça em zona de passagem (pisa). A respetiva leitura modernizada propõe: “Esta sepultura é de Pedro Dias, que esta capela mandou guarnecer, e de Guiomar da Rosa, sua mulher” (ou alternativamente “mãe”, embora menos provável). O antropónimo da esposa do patrono, raro no onomástico medieval cristão, sugere uma provável ligação à comunidade judaica convertida (cristã-nova). Do conteúdo depreende-se a existência de uma capela tumular privativa beneficiada por Pedro Dias com obras de ornamentação.
A “Face B” comprova o reaproveitamento posterior da pedra tumular, exibindo uma gravação mais longa, com treze linhas em letra gótica comum de maiores dimensões, enquadrada por uma moldura saliente em alto-relevo. A leitura interpretativa modernizada dita: “Esta capela mandou fazer e jaz nela Martim Gonçalves de Vasconcelos, cavaleiro da Ordem de Santiago, primeiro comendador de Cabrela e Canha e, mais tarde, comendador de Almada”. O relato refere ainda o seu casamento com Maria Martins de Lemos e o seu falecimento com quarenta e tal anos (leitura restringida ao numeral 'XL' devido ao estado de conservação).
Sabendo-se, através de testemunho documental de 1469, que este comendador foi sepultado na Igreja de Santiago de Almada em capela própria, obtém-se uma sólida baliza cronológica e de contextualização para a peça. Conclui-se que, pouco tempo após a sua deposição original na sepultura de Pedro Dias e Guiomar da Rosa, a lápide foi removida, invertida e reaproveitada na face oposta para perpetuar a memória de Martim Gonçalves de Vasconcelos.
A lápide encontra-se patente ao público na exposição “Entre Dois Mares e um Rio – Almada, 3 mil anos de História", visitável no Museu de Almada-Casa da Cidade.