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Na sequência de uma longa tradição moageira, a instalação e o crescimento exponencial desta indústria na Cova da Piedade – Caramujo fomentam o crescimento económico local. Ligada a esta atividade no estuário do Tejo desde início de Oitocentos, com a exploração de moinhos de maré, a família Gomes inaugura, em 1865, no Caramujo, a fábrica e a doca de desembarque de trigo e embarque de farinha. A esta fábrica, de Manuel José Gomes (1802–1881), foram sendo acrescentados outros edifícios; no final dos anos de 1880, é introduzida a máquina a vapor. Em junho de 1897, sendo proprietário António José Gomes (1847–1909), filho do fundador, sofre um violento incêndio, que quase a destruiu, ficando de pé apenas as paredes. O proprietário, conhecedor de novas técnicas de construção, encomenda um novo edifício: concluído em 1899, é o primeiro em betão armado no país. Incorporava todos os aperfeiçoamentos recentes que a indústria exigia, nomeadamente o sistema austro-húngaro, que usava rolos de aço num método de moagem gradual. Os seis pisos, diferenciados de acordo com as fases de produção, concentram o circuito produtivo num só edifício. A obra terá ficado a cargo do ateliê de Hennebique (que patenteou esta nova técnica de construção) e dos seus representantes em Portugal. Implantado numa área trapezoidal de 831m², representativo da arquitetura industrial modernista, o edifício assume-se como importante testemunho etnográfico da vivência fabril e portuária almadense. Os dois primeiros pisos estruturam-se em pé-direito duplo, com altos janelões, sem que se denunciem do lado exterior. Um painel emblemático encimava a fachada; o último piso, o terraço, uma inovação à época, estava coberto por uma toalha de água, que servia de protetor, isolante térmico e reservatório para incêndios. Ficará conhecida até aos nossos dias como Fábrica Aliança, uma das suas últimas denominações. Inserida num conjunto industrial de edifícios de armazenagem, habitação operária e infraestruturas complementares à atividade, sofre, nos anos 60, a última grande fase de obras de transformação e modernização, construindo-se os silos cilíndricos adossados ao edifício e reapetrechando-se de maquinaria, o que altera grandemente a laboração. Passados poucos anos, o declínio é evidente: a progressiva degradação da zona do Caramujo, devido ao assoreamento completo da zona da doca e à recessão industrial dos anos 80, condiciona a atividade de fábrica. Em 1993, o complexo fabril encerra, cessando a produção.
Rua Manuel José Gomes, 2805-193 Almada
Tipo de património cultural