PATRIMÓNIO
Condições de Acesso: Livre
Cronologia: Indeterminado
Propriedade/Natureza: Privada
Gestão/Entidade: Não determinada
ENQUADRAMENTO LEGAL
Classificado: Não
Classificação/Proteção: Inventariado / Área de valor arqueológico potencial: qualquer tipo de intervenção relacionada com infraestruturas, incluindo as de saneamento e rede de águas, operações urbanísticas e atividades agrícolas ou florestais, se implicarem impactos significativos ao nível do subsolo, deve ser precedida de trabalhos arqueológicos de diagnóstico, podendo implicar ulteriores medidas de minimização e adaptações aos projetos de intervenção em função da avaliação dos elementos encontrados
Legislação Associada: PDM de Almada
Quinta da Virgem de Macarena 2
O conjunto é composto por duas cavidades naturais reutilizadas como abrigo, existentes num talude e com as entradas orientadas a norte. Numa primeira fase de prospeção, realizada em 2021, as estruturas apenas puderam ser observadas à distância, devido à presença de uma densa barreira de silvado que impedia a aproximação. Na altura, apenas eram visíveis vestígios de inclusões decorativas de conchas de bivalves aplicadas sobre as paredes revestidas com argamassa, uma argola metálica de amarração cravada na vertente e buracos circulares afeiçoados na parte superior, os quais sugerem o encaixe de um antigo telheiro ou alpendre, hoje desaparecido.
Uma nova fase de trabalhos, desenvolvida em 2025, viabilizou finalmente o acesso direto ao interior das estruturas. Esta intervenção permitiu identificar uma rica decoração em embrechados — técnica artística que consiste na incrustação de pequenos materiais numa camada de argamassa fresca. Muito marcante em Portugal e no Brasil durante os períodos Barroco e Rococó (séculos XVII e XVIII), esta arte decorativa era frequentemente aplicada em paredes de grutas artificiais, fontes, cascatas, nichos de jardim, bancos e muros exteriores de quintas e palácios. Neste caso, foram utilizadas conchas (sobretudo de berbigão e amêijoa) para criar motivos vegetalistas, com maior incidência na abóbada, e revestimentos parietais simples, parcialmente colapsados, por vezes contrastados com a aplicação de uma pasta negra (possivelmente carvão), conferindo ao espaço uma textura orgânica rude e um ambiente cenográfico.
Adicionalmente, num dos espaços internos, identificou-se um rodapé composto por uma fileira de azulejos azuis e brancos com representações florais. Foi reconhecido, igualmente, um grafito epigráfico manuscrito diretamente sobre a argamassa de revestimento parietal. Escrita com pigmento escuro (lápis de carvão), a inscrição apresenta uma caligrafia cursiva setecentista cuja leitura preliminar revela a frase inicial "Esta gruta dedica[...]", seguida de vocábulos associados ao ato de "louvar" ou expressar "gratidão". O isolamento do local, aliado ao forte investimento estético, à presença da azulejaria e a esta importante evidência votiva escrita, corrobora e reforça a hipótese de o espaço ter funcionado, originalmente, como um eremitério, gruta devocional ou local de reclusão espiritual.