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Percursos de autor - São José Correia

São José Correia

Quem não conhece São José Correia? Estamos habituados a ver a atriz no palco do teatro, na tela do cinema, no pequeno ecrã, onde é presença assídua. Mas, a verdade é que descobrimos nesta pequena viagem por Almada Velha a sua ligação à cidade onde passou a juventude e onde descobriu a representação, na Companhia de Teatro de Almada.

Texto de Joana Mendes
Fotografia de Luís Filipe 
Catarino

A descoberta surgiu como forma de superar a timidez. “A minha ideia era ser advogada, por isso é que fui para o teatro, porque era demasiado tímida. Decidi que seria um bom exercício para mim”. Um exercício que se tornou profícuo na vida da atriz, que conta já com cerca de 30 anos de carreira.

“Acho que essa vontade de ser advogada era influenciada pelas séries de televisão que víamos. As séries americanas onde o júri tem muita importância nos tribunais. Há sempre aqueles grandes discursos e acho que era um bocadinho isso que me influenciava”. O lado cénico das séries cativava, na altura, a jovem São José, que hoje garante “não ter nada a ver com leis”. Também as aulas de teatro da irmã, a que assistia no nono ano, acabaram por influenciar a atriz rumo ao teatro e à representação. E foi precisamente no Teatro Municipal Joaquim Benite que marcámos encontro, na atual casa da Companhia onde fez a sua aprendizagem.

Começou com espetáculos infantis, convidada por Teresa Gafeira, “uma das minhas mestras”. Seguiu-se o Curso de Formação de Atores da companhia onde acabou por ficar dez anos, fazendo parte do elenco fixo.

“Toda a minha aprendizagem foi feita aqui. Não só com o Joaquim [Benite], obviamente. Trabalhei com outras pessoas extraordinariamente importantes na minha vida. O professor Jorge Listopad, Rogério de Carvalho – que é um dos meus mestres e com quem estou a trabalhar –, Vítor Gonçalves, Francisco Costa, Maria Frade, António Assunção”.

Percebemos a importância que tem para a atriz uma companhia onde todos contam. Uma companhia “é feita de muita gente e posso dizer que aprendi com muitas pessoas. Até com o mestre Verdades [o mestre carpinteiro, diretor técnico do teatro] aprendi bastante porque me dava imensas dicas em relação ao mundo em que vivíamos e que era novo para mim. Toda a gente à nossa volta nos pode ensinar coisas”.

Seguimos viagem rumo ao Jardim do Castelo. No local, São José dirige-se rapidamente à Bela-sombra, a grande árvore que se encontra à entrada do jardim. É aqui que o sorriso franco de São José aparece. “Esta árvore foi muito importante na minha vida, na minha adolescência. Vínhamos namorar para o Jardim do Castelo e lembro-me, quando vinha alguém de quem não gostávamos, escondíamo-nos na árvore que na altura tinha mais troncos e era mais fácil de subir. Lembro-me de chegarem rapazes com quem tínhamos combinado coisas e, em vez de estarmos aí sentadas à espera, estávamos ali em cima. Se nos apetecesse confirmar o encontro descíamos ou, se não, mantínhamo-nos escondidas até eles se irem embora. Passei muitas horas nesta árvore.”

Filha de pais madeirenses que se instalaram em Almada, na zona antiga da cidade, São José é a mais nova de quatro irmãos. “A nossa casa era muito pequenina. Para brincarmos todos tínhamos de ir para a rua, não podíamos brincar em casa. Quer dizer, podíamos, mas era um suplício para a minha mãe e para o meu pai. Até para nós”. São José recorda o tempo em que miúdos brincavam livremente na rua e da proximidade entre vizinhos. “Os pais não se preocupavam tanto connosco porque sabiam que estávamos protegidos. Havia sempre um vizinho a ver”, como a dona do gato Miró que, ao chamar o bichano em altos berros desde a janela, provocava uma algazarra entre a criançada que brincava na rua.

O Jardim do Castelo e o miradouro eram, assim, o palco de brincadeira dos miúdos. “Sempre se privilegiou este sossego que é estares num sítio seguro com esta vista extraordinária.” Uma paisagem que também podia ser usufruída a partir da Casa da Cerca, onde a atriz recorda as partidas de xadrez que jogava com o pai aquando da abertura deste edifício ao público.

A zona ribeirinha e o caminho que a atriz levava de Almada Velha ao Ponto de Encontro, em Cacilhas, faz igualmente parte das memórias de São José, que ainda sabe de cor o número de degraus da escadaria que liga o Largo da Boca do Vento ao Cais do Ginjal.

“Posso dizer que existiam 209 degraus. Houve uma altura da minha vida que descia, a seguir ao almoço, passava a tarde com os meus amigos, como não tinha dinheiro para jantar fora, voltava a subir, jantava em casa, voltava a descer e à noite voltava a subir. Fazia estas escadas quatro vezes por dia”, muitas vezes em direção ao Ponto de Encontro, em Cacilhas, onde tinha aulas de capoeira, via espetáculos e estava com os amigos.

Ao longo da conversa com São José falamos de mudanças. De como mudamos, enquanto pessoas, ao longo da vida. De como a própria cidade muda. Falamos de um Jardim do Castelo que, na altura, era um largo amplo, aberto, sem o “corte” que a estrutura, hoje um restaurante, representa na integridade do jardim. De um miradouro da Boca do Vento que era, “todo branco e vermelho, feito de tijolo, com buganvílias enormes, antiquíssimas. Tinha uma tasquinha muito pequenina, uma coisa muito despojada”, mas que caracterizava o local. Abandonamos o Jardim do Castelo com uma certa nostalgia que se desvanece quando nos dirigimos à Capitão Leitão onde São José Correia faz questão de visitar o Sr. Fernando, dono do salão de jogos Bar Desporto ou, como lhe chama a atriz, A Padeirinha.

Foi lá que começou a jogar snooker para conhecer melhor um rapaz de quem gostava. “Entretanto, conheci-o e não lhe achei piada nenhuma. Mas fiquei totalmente viciada em snooker”. O Sr. Fernando também ficou para a vida. “Foi sempre muito meu amigo”, conta a atriz que, quando a mãe lhe pedia para ir comprar pão, o fazia a acelerar para ter tempo de fazer uma partida de snooker sozinha. “O Sr. Fernando deixava-me jogar sem as três bolas, sem abrir o contador, para não ter de pagar. Depois ia para casa com o pão. Foi muito meu cúmplice nestas jogatanas de miúda”.

São José manteve a paixão do snooker. “Já não jogo com tanta frequência, mas gosto muito de jogar. Aqui [no salão de jogos], no outro dia, não joguei snooker. Joguei um jogo de matraquilhos com a minha sobrinha.”

Apesar de morar em Lisboa, São José regressa habitualmente a Almada, onde almoça com a mãe, onde joga matraquilhos com os sobrinhos no salão de jogos da sua juventude e onde volta ao palco de uma Companhia que a viu crescer. Vamos poder ver São José Correia no Teatro Municipal Joaquim Benite, até 27 de novembro, na peça O Medo Devora a Alma, um texto de Rainer Werner Fassbinder encenado por um dos seus mestres, Rogério de Carvalho.