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Projeto CavAlMar - Quantos são e onde vivem os cavalos-marinhos de Almada?

Cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus), foto de Sylvie Dias
Cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus), foto de Sylvie Dias

A frente ribeirinha do concelho de Almada – um ecossistema rico e frágil

O estuário do Tejo constitui um ecossistema de alta produtividade, tanto ao nível da riqueza e diversidade de espécies, como da abundância de organismos, prestando um conjunto de serviços ambientais de valor inestimável a nível local e regional, que importa compreender e salvaguardar.

A vulnerabilidade ambiental da Frente Ribeirinha Norte do concelho de Almada, que se estende por 10 km entre a Cova do Vapor e Cacilhas, aliada à relevância das atividades socioeconómicas locais, como a pesca, tornam fundamental a existência de informação detalhada sobre as modificações sentidas nas comunidades piscícolas desta região.

A existência de comunidades de cavalos-marinhos no estuário do Tejo é um fato bem conhecido há algum tempo, mas só em anos recentes foi identificado, na baía da Trafaria, um importante núcleo populacional destas espécies. Esta descoberta inesperada veio sugerir que, muito provavelmente, estes peixes peculiares também poderão ocorrer noutros locais da frente ribeirinha de Almada.

 

Os cavalos-marinhos – peixes peculiares e protegidos

Os cavalos-marinhos (Hippocampus spp.) são peixes carismáticos e icónicos, na sua maioria protegidos, que vivem em zonas pouco profundas de alguns dos habitats marinhos mais vulneráveis em todo o mundo. Vivem tipicamente em zonas costeiras, onde ocorre maior impacte de atividades humanas, sendo por isso muito afetados pela poluição e perda de habitat.

O reconhecimento internacional destes fatores de ameaça, e seu impacto negativo nas populações de cavalos-marinhos, levou à implementação de medidas de mitigação, entre as quais se destaca a inclusão destas espécies na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES) e na Convenção de Berna.

Em Portugal, existem duas espécies de cavalos-marinhos, o cavalo-marinho-de-focinho- comprido (Hippocampus guttulatus) e o cavalo-marinho-comum (Hippocampus hippocampus), sendo as populações da Ria Formosa as mais estudadas. Na última década, a abundância de cavalos-marinhos sofreu uma redução na ordem dos 90 %, devido sobretudo a pressões causadas pela atividade humana. Tendo em conta que ambas as espécies estão classificadas na lista vermelha da UICN com o estatuto de conservação “Dados Insuficientes”, é urgente proceder à recolha de informação noutros locais da sua distribuição geográfica, de modo a aumentar o conhecimento destas espécies e contribuir para a atualização desta classificação.

Em 2019, foi descoberto na baía da Trafaria um importante núcleo populacional de cavalos-marinhos, o qual se encontrava seriamente ameaçado pela derrocada dos pontões rochosos que lhes servem de habitat. A pressão que se faz sentir no imediato sobre estas populações torna premente melhorar o conhecimento sobre a sua distribuição geográfica, tamanho da população, caracterização do habitat, estado de conservação e ameaças que enfrentam, entre outros aspetos ecologicamente relevantes para a conservação destas espécies.

 

Projeto CavAlMar – inventariar, sensibilizar e proteger

Em face desta situação de ameaça imediata, considerou-se da maior relevância proceder ao levantamento e monitorização ecológica da situação na Frente Ribeirinha Norte, para assim conhecer a qualidade ambiental deste ecossistema, bem como a dimensão do alcance e magnitude das pressões a que está sujeita a população de cavalos-marinhos.

O projeto CavAlMar surge para colmatar esta necessidade, resultando de um protocolo estabelecido entre a Câmara Municipal de Almada e o MARE-ISPA (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida), um grupo de investigação com larga experiência nesta área, que irá realizar uma campanha de mergulhos ao logo da frente ribeirinha.

Este projeto científico tem como objetivos:

  • Efetuar o levantamento populacional das populações de cavalos-marinhos e outros singnatídeos, e caracterizar o habitat onde ocorrem na frente ribeirinha do município de Almada, incluindo a identificação de locais adequados para eventuais relocalizações de animais destas espécies;
  • Identificar, caracterizar e mapear as ameaças, riscos e oportunidades para a biodiversidade na frente ribeirinha norte;
  • Sensibilizar os diferentes atores locais para a necessidade de conservação destes peixes e dos seus habitats;
  • Discutir e delinear um plano de ação para a mitigação de ameaças, e planear um eventual projeto de restauro de habitat no futuro.

Para além do desenvolvimento e implementação de medidas de proteção dos diversos recursos marinhos, os resultados deste projeto pretendem constituir um contributo para o bem-estar e qualidade de vida da população de Almada, designadamente na utilização sustentável dos recursos biológicos, na promoção da segurança alimentar e no desenvolvimento da Economia do Mar. Os resultados obtidos serão também relevantes para aumentar o conhecimento e melhorar a divulgação do importante património natural ribeirinho do Concelho de Almada, contribuindo de forma estruturante para a gestão ambiental integrada do município.

 

Colabore com este estudo sobre os cavalos-marinhos, preenchendo o questionário: https://forms.gle/gWPayUn95sSWRLet6

População de cavalos-marinhos devolvida à natureza

No passado dia 31 de Outubro, foram devolvidos ao seu habitat natural os cavalos-marinhos resgatados em 2022 na zona do pontão da Trafaria, que ficaram em risco após o colapso da estrutura.

A ação foi coordenada pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, e envolveu o Oceanário, o MARE-ISPA, devidamente licenciados para a translocação dos cavalos-marinhos, e a Câmara Municipal de Almada.

A devolução foi feita em mergulho, na zona da Trafaria, em habitat natural seguro

Este núcleo populacional de cavalos-marinhos das espécies Hippocampus hippocampus e Hippocampus guttulatus, têm graves problemas de conservação, necessitando de medidas de proteção específicas e urgentes, onde a colaboração de diferentes entidades se revela fundamental.

Durante o período de resgate e da sua libertação, os cavalos-marinhos foram acolhidos pelo Oceanário de Lisboa, onde permaneceram ao seu cuidado até á sua libertação.

As espécies Hippocampus hippocampus e Hippocampus guttulatus têm graves problemas de conservação, necessitando de medidas de proteção específicas e urgentes, o que fez com que já estejam listadas nos anexos da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção) e no Regulamento Comunitário, que aplica essa convenção na União Europeia, tendo ainda sido incluídas nos anexos do Decreto-Lei nº 38/2021, de 21 de maio, que aprovou o regime jurídico aplicável à proteção e à conservação da flora e da fauna selvagens e dos habitats naturais das espécies enumeradas nas Convenções de Berna e de Bona.